Diretor-Executivo, Bravo Sports
Enquanto alguns clubes se tornam exemplos de governança, muitos ainda patinam em dívidas. O caminho para o futuro do futebol brasileiro passa por uma escolha: seguir o modelo do sucesso ou insistir no erro
Gostaria hoje de propor uma reflexão. As classificações históricas de Flamengo e Palmeiras para a final da Libertadores, com superação em cenários de extrema adversidade (um com um jogador a menos, outro na maior virada da história da semifinal), não são apenas um milagre esportivo. Elas são o sintoma mais recente dos dois universos paralelos do futebol brasileiro. Em um, vemos (como já escrevi antes) esses dois clubes com superávits recordes, investindo em estrutura, no elenco e colecionando títulos. Claro que o esporte (nesse caso o futebol) sempre dá oportunidade ao imprevisível, mas nesses dois casos, a força da estrutura lhes dá peças e condições para viver situações decisivas e vencê-las.
A estrutura que esses dois clubes têm é a prova de que a equação milenar – despesa tem que ser menor que a receita – não é um milagre, mas o único caminho.
No outro universo, porém, a realidade ainda é sombria. Vemos vários clubes gigantescos como o Corinthians, cuja situação financeira crítica levou a consultoria Ernst & Young (EY), em seu relatório de 2024, a apontar a necessidade de medidas drásticas – como a adoção da SAF ou até um pedido de Recuperação Judicial – para evitar o colapso de uma dívida bilionária.
A raiz do problema não reside necessariamente em má-fé, mas em uma estrutura de incentivos perversa. Mandatos presidenciais curtos incentivam o imediatismo. No mundo corporativo, um índice de alavancagem (medido pela relação Dívida Líquida/EBITDA) acima de 3x já acende um alerta vermelho. No futebol, gestores ultrapassam essa marca e, por vezes, são aplaudidos por isso, impulsionados por uma parte da torcida sedenta por títulos e sem saber que seu clube corre sério risco de não existir “amanhã”. Essa pressão é amplificada por uma cobertura da mídia mais focada no resultado de domingo do que no balanço financeiro de sexta-feira.
Se os gigantes com receitas estratosféricas parecem uma realidade distante para muitos, o verdadeiro roteiro para a sustentabilidade pode estar em exemplos como o do Mirassol. Com um orçamento que equivale ao salário mensal de uma única estrela de um clube da ponta, a equipe do interior paulista financia toda a sua folha salarial.
O segredo? Gestão, planejamento e um foco obsessivo na eficiência.
O Mirassol prova que a organização tática fora de campo é tão decisiva quanto a que se vê nas quatro linhas. É a demonstração de que o primeiro passo para a grandeza não é gastar mais, mas gastar melhor. Isso prova que não existe uma fórmula mágica ou uma regra única.
O “remédio” certo depende do diagnóstico de cada clube: seu tamanho, o perfil da sua dívida e, principalmente, sua situação política e estatutária. O Mirassol é o exemplo da eficiência. O Red Bull Bragantino é outro, gerido puramente como uma unidade de negócio de uma empresa global. O Botafogo, por sua vez, mostra os dois lados da moeda: via SAF, teve uma evolução técnica inegável dentro de campo, mas agora enfrenta os desafios da governança corporativa, com uma briga pública entre os sócios.
É claro que, além desses concorrentes organizados, o esporte vive do imponderável – essa é a graça e a paixão do jogo. Contudo, num futuro próximo, o “imprevisível” só terá chance de acontecer para quem estiver minimamente estruturado. Só quem estiver organizado estará, de fato, “nessa briga”.
E, claro, temos a barreira da política. Provei “na pele” durante minha passagem como presidente da Confederação Brasileira de Skate, como a situação política pode ser danosa e atrapalhar uma administração que tenta ser técnica. Hoje para os clubes brasileiros, o modelo escolhido (SAF, associação ou empresa) e seus detalhes de governança são tão importantes quanto a capacidade de executá-lo de acordo com o planejado, com profissionais de mercado e sem interferências.
O tempo de dirigentes falastrões, que ficam fazendo bravatas para a torcida, já acabou. Mas alguns ou ainda não perceberam ou propositalmente fecham os olhos para isso. E o principal interessado nesse mercado que é o torcedor, que em sua grande maioria ainda não percebeu o “jogo”, joga a favor da bagunça que vemos em tantos times por aí.
Antes, colocava-se na balança se valia a pena contratar mesmo sem condições financeiras, pois o que mais interessava era o título, ou se arrumava as finanças do clube. Poucos optaram pela segunda opção; agora, eles são os que estão desfrutando de um momento e futuro tranquilos e competitivos, enquanto os outros pagam o preço da irresponsabilidade.
O caminho está traçado. Os exemplos de sucesso estão aí. A hora agora é de transformar a exceção em regra.
– FIM –
* As opiniões expressas neste artigo são responsabilidade exclusiva do autor e não refletem necessariamente a visão e opinião da SIGA ou dos seus membros.
O artigo foi publicado originalmente em MKTesportivo.com, no âmbito da participação da Bravo Sports no Sport Integrity Action Month 2025.
