Por Andrei Kampf
Fundador, Lei em Campo
A cada novo escândalo que irrompe no futebol brasileiro, uma lição reaparece como se fosse nova, mas ela nunca deveria ter sido esquecida: integridade não é um detalhe administrativo. É condição de sobrevivência.
Por isso, iniciativas como o Mês de Ação da Integridade Esportiva (SIAM), da Sport Integrity Global Alliance (SIGA), que, ao longo de novembro, mobiliza governos, federações, clubes, empresas e sociedade civil para colocar a ética e a transparência no centro do jogo são fundamentais.
Os casos recentes envolvendo o Corinthians, com a denúncia do Ministério Público de uso inapropriado de cartões corporativos, o escândalo que levou o Cruzeiro ao colapso institucional, a condenação de ex-dirigentes do Internacional, mostram que a ausência de controles não produz apenas prejuízo financeiro: produz desconfiança, vulnerabilidade jurídica e uma crise profunda de legitimidade.
O problema é estrutural. Em muitos clubes e federações, a gestão ainda opera na lógica da confiança pessoal, uma cultura de portas fechadas, favores, informalidade e baixa prestação de contas. Quando a confiança vira interesse, o sistema desaba. E é aí que a integridade – ou sua ausência – revela seu custo real.
O exemplo do Internacional e a força da autodepuração
Entre os episódios recentes, talvez nenhum seja tão simbólico quanto o caso do Internacional. Ali, o futebol brasileiro viu algo raro: autodepuração institucional. Enfrentando falhas graves de governança, o clube instaurou investigação interna, afastou dirigentes, produziu relatórios técnicos, aplicou o estatuto e colaborou com o Ministério Público, que denunciou e conseguiu a condenação criminal de ex-dirigentes por gestão temerária e desvio de recursos.
Foi um movimento civilizatório: o esporte agindo sobre si mesmo, sem intervenção externa, reafirmando que autonomia exige responsabilidade. Um clube que olha para dentro, reconhece o erro, pune e corrige. Esse é o retrato de uma governança madura.
Integridade como proteção e como escudo
A verdade é simples: sem compliance, o futebol vira um terreno fértil para riscos que vão de má gestão a crimes financeiros. As recentes denúncias de lavagem de dinheiro ligada ao PCC por meio de clubes e transferências são um sinal claro do tamanho da vulnerabilidade.
A preocupação não é teórica. A recente operação da Polícia Federal envolvendo fintechs que usavam o futebol para lavar dinheiro escancara o tamanho do risco. Plataformas financeiras criadas para mascarar transações ilícitas passaram a utilizar clubes, contratos de intermediação e transferências internacionais como canais de ocultação de valores. O recado é direto: quando o esporte não cria seus próprios filtros, vira atalho para estruturas criminosas. E, diante de operações desse porte, fica evidente que integridade não é custo, é proteção institucional, jurídica e reputacional para que o futebol não seja capturado por interesses que nada têm a ver com o jogo.
O futebol movimenta cifras altíssimas, com operações internacionais complexas e pouca rastreabilidade. É o cenário perfeito para quem quer ocultar valores ilícitos. Quando não há due diligence, quando não há controles, quando não há trilhas de auditoria, a porta fica escancarada.
Um programa de integridade eficaz – com políticas claras de uso de recursos, gestão de conflito de interesses, canal de denúncia, auditorias independentes e transparência orçamentária – não é burocracia: é segurança jurídica, é proteção reputacional, é blindagem institucional.
Ele protege dirigentes honestos, afasta aventureiros e dá previsibilidade às decisões. Protege o torcedor, que deixa de ser refém de gestões amadoras. Protege investidores e patrocinadores, que só aportam onde há confiança. Protege o próprio esporte.
No centro dessa discussão, há um ponto que o esporte brasileiro ainda hesita em reconhecer: integridade e direitos humanos caminham juntos. O futebol não é um ambiente separado da sociedade; ele reflete suas tensões, desigualdades e vulnerabilidades. Proteger a integridade também significa proteger pessoas, de atletas, funcionários, torcedores e comunidades que orbitam o jogo.
Integridade como ativo econômico
No futebol moderno, integridade vale dinheiro e reputação. Patrocinadores e investidores não querem apenas desempenho esportivo; querem governança confiável. Querem clubes que prestem contas, que publiquem relatórios, que tenham controles, que saibam onde cada centavo foi parar.
É por isso que compliance deixou de ser moralismo ou exigência legal:
virou diferencial competitivo.
Um clube íntegro capta mais, negocia melhor, atrai parceiros, vira referência.
Um clube sem integridade vira manchete e não pelas razões certas.
A cultura do “sempre foi assim” não cabe mais
O futebol brasileiro viveu durante décadas sob a lógica da informalidade e das estruturas personalistas. Esse tempo acabou. Hoje há mais fiscalização, mais atenção pública, mais imprensa investigativa, mais órgãos de controle e mais mecanismos legais, inclusive a Lei Geral do Esporte, que intensifica a responsabilidade dos dirigentes.
O cenário exige maturidade institucional. E exige algo ainda mais simples, mas essencial: processos.
Não dá mais para depender do “fulano é de confiança”. Gestão moderna não se faz com confiança: se faz com controles.
Nesse debate, é impossível ignorar o papel de entidades independentes como a SIGA, que há anos trabalham para criar padrões globais de governança e integridade no esporte. O futebol brasileiro precisa olhar para fora de si, buscar referências e adotar métricas que não dependam da boa vontade dos dirigentes de ocasião.
Em um ambiente tão vulnerável a riscos, ter atores externos especializados não é interferência, é colaboração essencial para quem quer proteger o jogo.
A integridade é inegociável
Como costumo dizer e repito aqui: compliance não veta, alerta. Quem tem a caneta toma a decisão. Mas só toma a decisão certa se tiver informação, processo e transparência.
Integridade não é luxo. Não é modismo. Não é custo.
É a única forma de garantir que o futebol sobreviva ao próprio futebol.
É a proteção inegociável que separa projetos sérios de projetos que ruem.
É o ponto de partida de qualquer clube que queira existir no futuro.
Andrei Kampff é jornalista, advogado e mestre em direito. Criador do portal Lei em Campo, sócio na AK Direito na Comunicação e no Esporte e autor dos livros Direitos Humanos e Esporte, como Caso George Floyd Mudou Regras do Jogo e 20 (júri) Histórias que Mudaram o Esporte
– FIM –
* As opiniões expressas neste artigo são responsabilidade exclusiva do autor e não refletem necessariamente a visão e opinião da SIGA ou dos seus membros.
O artigo será publicado originalmente em Lei em Campo, no âmbito da participação da Open Gaming no Sport Integrity Action Month 2025.
